É porque sou ácido também, é porque corroo os ouvidos alheios. É porque não sou santa.

o que te cura?

É porque sou ácido também, é porque corroo os ouvidos alheios. É porque não sou santa.

Sólo el viento sabe mi nombre

Me atreví a soñar
y ahora estoy viviendo sin saber,
improvisando sobre el escenario
ante un público que espera demasiado de mí.

Deambulo por la ciudad
recopilando nombres de calles
y observando rostros desconocidos
que esconden diferentes historias.

Allí me refugio en el anonimato
y soy tan sólo lo que los demás
creen que soy,
vago perdida y sin nombre, sola
entre la multitud,
mientras siento en mis muñecas
las cadenas del compromiso y la rutina.

Doy un paso, otro,
y quisiera que fuese el viento
el único que dictara mi camino.

Improviso ante cada puerta y espejo
y entonces comprendo que la vida
dura sólo un segundo
y parpadear está de más.

© Celia Gómez, 2011

Eu perdi o voo

Hoje minha mãe acordou cedo. Varreu a casa, lavou a louça, terminou de arrumar as malas, fez barulho e me acordou. “Dia bom, filha” ela disse. Seria um dia bom. 
Durante alguns meses mamãe planejou mentalmente o que faria quando reencontrasse a família. Aquele sol…ah, aquele sol de rachar a cuca! O vento a levantar poeira por entre as rugas de sua pele, o leite fresco daquela vaca, os filhos dos sobrinhos pedindo presente como se mamãe fosse o novo noel. Ela gostava, queria. Apesar do rancor, sempre lhe apertou o peito estar longe da mãe. Mamãe sempre fala de minha avó com amor, mas com um nó na garganta pelo carinho que lhe faltou. Já quis dizer a minha vó que mamãe merece muito mais, porque quando fala das surras que tomou o que lhe dói - até hoje - é a pitada de desprezo em cada uma. Como não pôde perceber os cachos de delicadeza de minha mãe? É um anjo essa mulher, minha avó! Um anjo moreno, sorridente e salpicado de sardas. Ah se soubesses quão boa mãe ela é… Queria guarda-lá numa daquelas caixinhas de música, sabe? Mas ela não é tão mais pura, nem pequena, tão pouco contente. Quando quer chegar perto da senhora ela vai mansa, querendo um colo compreensivo e mãozinhas enrugadas passeando em seu cabelo pra ver se ameniza essa dor que ganhou durante a vida. Ah… será que logo a senhora tão sã, tão racional e boa de vista não consegue enxergar?

Minha vó, temo pelo derradeiro dessa situação, a gota que transbordará essa lagoa tão serena. Essa mulher que já apanhou tanto, em casa, na rua, chicotes de desprezo alheio, de desamor, de palavras de gente amargurada, essa gente que não soube valorizar sua preciosidade, essa mulher é de verdade e sangra todo dia. 

Não vá embora sem acarinhar a existência dessa mulher, não vá sem dizer que ela é o complemento de meu avô, aquele homem que tornava-se miúdo ao lhe ouvir falar, mas que é justamente por isso que a senhora a ama, por ser um pedaço daquele honroso homem. Diga que amou seu marido, seu companheiro, que ama seus filhos, netos e bisnetos. Diga por ela e por minha madrinha, aquela quase índia, uma linda quase índia.

Hoje minha mãe acordou cedo e chorou.

(laguerison)

ô louis…

(Fuente: marinapopova)

c-osmonauta:

Nick Miller, Nick Miller from the streets of Chicago

nick ♥

(Fuente: dayandmiller)

Os Três Mal Amados (João Cabral de Melo Neto)

JOÃO:
Olho Teresa. Vejo-a sentada aqui a meu lado, a poucos centímetros de mim. A poucos centímetros, muitos quilômetros. Por que essa impressão de que precisaria de quilômetros para medir a distância, o afastamento em que a vejo neste momento?
RAIMUNDO:
Maria era a praia que eu frequentava certas manhãs. Meus gestos indispensáveis que se cumpriam a um ar tão absolutamente livre que ele mesmo determina seus limites, meus gestos simplificados diante de extensões de que uma luz geral aboliu todos os segredos.
JOAQUIM:
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
JOÃO:
Olho Teresa como se olhasse o retrato de uma antepassada que tivesse vivido em outro século. Ou como se olhasse um vulto em outro continente, através de um telescópio. Vejo-a como se a cobrisse a poeira tenuíssima ou o ar quase azul que envolvem as pessoas afastadas de nós muitos anos ou muitas léguas.
RAIMUNDO:
Maria era sempre uma praia, lugar onde me sinto exato e nítido como uma pedra - meu particular, minha fuga, meu excesso imediatamente evaporados. Maria era o mar dessa praia, sem mistério e sem profundeza. Elementar, como as coisas que podem ser mudadas em vapor ou poeira.
JOAQUIM:
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
JOÃO:
Posso dizer dessa moça a meu lado que é a mesma Tereza que durante todo o dia de hoje, por efeito do gás do sonho, senti pegada a mim?
RAIMUNDO:
Maria era também uma fonte. O líquido que começaria a jorrar num momento que eu previa, num ponto que eu poderia examinar, em circunstâncias que eu poderia controlar. Eu aspirava acompanhar com os olhos o crescimento de um arbusto, o surgimento de um jorro de água.
JOAQUIM:
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
JOÃO:
Esta é a mesma Teresa que na noite passada conheci em toda intimidade? Posso dizer que a vi, falei-lhe, posso dizer que a tive em toda a intimidade? Que intimidade existe maior que a do sonho? a desse sonho que ainda trago em mim como um objeto que me pesasse no bolso?
RAIMUNDO:
Maria não era um corpo vago, impreciso. Eu estava ciente de todos os detalhes do seu corpo, que poderia reconstituir à minha vontade. Sua boca, seu riso irregular. Todos esses detalhes não me seria dificil arrumá-los, recompondo-a, como num jogo de armar ou uma prancha anatômica.
JOAQUIM:
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
JOÃO:
Ainda me parece sentir o mar do sonho que inundou meu quarto. Ainda sinto a onda chegando à minha cama. Ainda me volta o espanto de despertar entre móveis e paredes que eu não compreendia pudessem estar enxutos. E sem nenhum sinal dessa água que o sol secou mas de cujo contacto ainda me sinto friorento e meio úmido (penso agora que seria mais justo, do mar do sonho, dizer que o sol o afugentou, porque os sonhos são como as aves não apenas porque crescem e vivem no ar).
RAIMUNDO:
Maria era também, em certas tardes, o campo cimentado que eu atravessava para chegar em algum lugar. Sozinho sobre a terra e sob um sol que me poderia evaporar de toda nuvem.
JOAQUIM:
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unha, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
JOÃO:
Teresa aqui está, ao alcance de minha mão, de minha conversa. Por que, entretanto, me sinto sem direitos fora daquele mar? Ignorante dos gestos, das palavras?
RAIMUNDO:
Maria era também uma árvore. Um desses organismos sólidos e práticos, presos à terra com raízes que a exploram e devassam seus segredos. E ao mesmo tempo lançados para o céu, com quem permutam seus gases, seus passáros, seus movimentos.
JOAQUIM:
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
JOÃO:
O sonho volta, me envolve novamente. A onda torna a bater em minha cadeira, ameaça chegar até a mesa. Penso que, no meio de toda esta gente da terra, gente que parece ter criado raízes, como um lavrador ou uma colina, sou o único a escutar esse mar. Talvez Teresa...
RAIMUNDO:
Maria era também a garrafa de aguardente. Aproximo o ouvido dessa forma correta e explorável e percebo o rumor e os movimentos de sonhos possíveis, ainda em sua matéria líquida, sonhos de que disporei, que submeterei a meu tempo e minha vontade, que alcançarei com a mão.
JOAQUIM:
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
JOÃO:
Talvez Teresa... Sim, quem me dirá que esse oceano não nos é comum?
RAIMUNDO:
Maria era também o jornal. O mundo ainda quente, em sua última edição e mais recente.
JOAQUIM:
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
JOÃO:
Posso esperar que esse oceano nos seja comum? Um sonho é uma criação minha, nascida de meu tempo adormecido, ou existe nele uma participação de fora, de todo o universo, de sua geografia, sua história, sua poesia?
RAIMUNDO:
Maria era também um livro susto de que estamos certos, susto que praticar, com que fazer os exercicíos que nos permitirão entender a voz de uma cadeira, de uma cômoda; susto cuidadosamente oculto, como qualquer animal venenoso entre folhas claras e organizadas dessa floresta numerada que leva dísticos explicativos: poesia, poemas, versos.
JOAQUIM:
O amor comeu meu estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava não saber falar delas em verso.
JOÃO:
O arbusto ou a pedra aparecida em qualquer sonho pode ficar indiferente à vida de que está participando? Pode ignorar o mundo que está ajudando a povoar? É possível que sintam essa participação, esses fantasmas, essa Teresa, por exemplo, agora distraída e distante? Há algum sinal que a faça compreender termos sido, juntos, peixes de um mesmo mar?
RAIMUNDO:
Maria era também a folha em branco, barreira oposta ao rio impreciso que corre em regiões de alguma parte de nós mesmos. Nessa folha eu construirei um objeto sólido que depois imitarei, o qual depois me definirá. Penso para escolher: um poema, um desenho, um cimento armado - presenças precisas e inalteráveis, opostas a minha fuga.
JOAQUIM:
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão me asseguram. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
JOÃO:
Donde me veio a ideia de que Teresa talvez participe de um universo privado, fechado em minha lembrança? Desse mundo que, através de minha fraqueza, compreendi ser o único onde me será possível cumprir os atos mais simples, como por exemplo, caminhar, beber um copo de água, escrever meu nome? Nada, nem mesmo Teresa.
RAIMUNDO:
Maria era também o sistema estabelecido de antemão, o fim aonde chegar. Era a lucidez, que, ela só, nos pode dar um modo novo e completo de ver uma flor, de ler um verso.
JOAQUIM:
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
leaui:

more gypsy bambii pink

leaui:

more gypsy bambii pink

(Fuente: wanderlusteurope, vía quedoceseja)

Foférrimos!!!!

Foférrimos!!!!

(vía sonha-te)

laguerison:

Maravilhoso!

Sempre reblogarei!!!

laguerison:

Maravilhoso!

Sempre reblogarei!!!

"Nós não somos pessoas ruins, apenas viemos de um lugar ruim"
Sissy em uma ligação para Brandon - Shame (2011- Steve McQueen)